Quantos pensamentos
Quantos
pensamentos, não é?! E como fazer para pará-los? Não tem essa pergunta? Quem não
gostaria de parar os pensamentos?... Pois trago algumas novidades em relação aos
pensamentos. E... como fazer...Quantos métodos já nos deram para pará-los? Você
tem idéia? Pois eu não vou dar nenhum outro! E sabe por quê? Porque a novidade
que trago é que não precisamos parar os pensamentos. A partir de hoje,
convide-os a ficar.
Deixem que
eles fiquem. Diga-lhes: - Bem-vindos sejam os pensamentos! Vamos lá! Pensem à
vontade!... Que venham a mim os pensamentos!!! Isso, simplesmente, porque vocês
não são os pensamentos. E você, quem você é em originalidade, radicalmente, não
pensa! Você, quem você verdadeiramente é, não pensa. Você pensa que você pensa,
porque você pensa que você é aquele que pensa, mas VOCÊ não pensa! Então
convidem os pensamentos a ficarem.
Por que
vocês têm brigado com seus pensamentos? Eles não são seus... Eles são apenas
pensamentos! Como os sons dos carros que passam...Como os sons das vozes... E
isso tudo é periférico a você. Imagina se, para você encontrar a paz, você
precisasse que todos os carros parassem... E que todas as vozes se calassem... E
todas as chuvas não chovessem... E todos os dias quentes, não fossem dias
quentes... E todos os dias frios, não fossem frios... E todas as dores de
barriga, não fossem dores de barriga... Assim, você teria uma possibilidade
ínfima de realizar a sua paz interior. Eu acredito que, se pensarmos assim, nós
estamos no caminho errado. Nós ainda estamos olhando para fora. Provavelmente,
todos vocês já tentaram parar os pensamentos... Já tentaram parar os carros...
Já pensaram em ter uma casa na colina para encontrar a paz. E quando você foi
para lá, não havia paz, tampouco! E se havia, era temporária... Então, nessa
busca tem algo errado. E eu ainda arriscaria dizer que é a própria busca que
está errada.
Alguém
colocou na sua cabeça que você tem que buscar a paz, e você acreditou... Ainda
porque, antes mesmo de dizerem isto, disseram que você não estava em paz. E
você, de novo, acreditou! E daí, conseqüentemente, disseram para começar a
buscá-la... E você começou a buscar a paz fora de você: se eu comer certos tipos
de comidas... se eu praticar certos tipos de exercícios... Eu vou encontrar a
paz! E até que, numa certa medida, relativamente, você encontra paz. Uma paz
relativa! Até que algo acontecesse... Até que alguém pisasse no seu pé... Até
que alguém virasse vinho no seu colo ou café quente na sua calça... Até que
alguém gritasse com você... Até que alguém contradissesse você...Até que alguém
fizesse algo que fosse inaceitável para você... E a paz que você tinha
"conquistado", foi-se! E aí, de novo você diz para si mesmo: eu não estou sendo
perfeito! Preciso me aperfeiçoar... Preciso melhorar ainda mais a minha
disciplina... Vou meditar mais! Ainda não foi suficiente o que fiz! Preciso
fazer mais!... E você olha para si mesmo como um ser imperfeito, em necessidade
de perfeição. E você tenta aperfeiçoar-se... Mas até quando? Até quando você irá
buscar isso dessa forma? Será que você vai conseguir?... Será que não está
faltando alguma coisa nisso?!
Você pensa:
"mas eu vou comprar um livro novo que saiu. Parece que ali tem a chave!" E você
vai, e compra o livro e o lê do início ao fim, tendo que voltar várias linhas,
porque já esqueceu o que passou, e aí você lê de novo aquela mesma linha... E
vai em frente, para a próxima página... E de repente você se encontra no meio da
página, e você olha e não se lembra o que leu antes... E aí começa tudo de novo!
E ainda chega ao fim do livro e se pergunta: "Onde está a tal chave?" Será que
você tem mesmo que buscar? E, em realidade, você sabe o que é que tem de
buscar?... O que você está buscando não é uma idéia pré-concebida?...Uma idéia
que alguém lhe deu de como é...Como deve ser... Como foi para ele.
E você está
procurando realizar aquilo que foi transmitido através de conceitos para você. E
assim, mesmo que você estivesse de molho na sua realidade, no seu estado búdico,
no seu nirvana, você não saberia!
Simplesmente porque não vai coincidir com aquilo que você leu, ou com as idéias
que você tem. Porque você lembra: "Parece que não se sente mais desejo!" E está
tudo muito bem, mas você ainda sente desejo. E agora? E então, lá vai você de
novo, pois está faltando alguma coisa.
Você
pensa:"Disseram que não se sonha!"... Mas ontem à noite você teve um sonho. E lá
vai você de novo, pois está faltando alguma coisa! "Está em algum outro lugar no
tempo!"."Está em algum outro lugar no espaço!". E lá vai você atrás... Até
quando? Quando você vai entender algo desse processo? E a sua mente pode
entender esse algo? Que algo é esse? Talvez até você já tenha entendido pelo que
falei até agora. Só que para isso, há a necessidade de esvaziar o copo! Mas faça
o seguinte: inclusive a idéia de esvaziar o copo deve ser esvaziada. Você tem
que esvaziar o copo e tem que esvaziar a idéia de que tem que esvaziar o copo,
ou que o copo está vazio, ou que há copo, e também a idéia de que há alguém
esvaziando o copo... "Mas como se faz isso?!"... Não se faz!!! "E como eu não
faço?"... E assim, novamente se volta ao fazer. "Mas eu tenho que fazer alguma
coisa, senão como é que vai ser?"... Oras!!! Vejam como tem sido! Vocês têm
feito coisas incessantemente, inclusive sem fazê-las, pois não fazê-las é um
fazer. Por exemplo: "Agora eu vou meditar!"
você senta,
respira, observa sua respiração, seu terceiro olho, seu hara, a ponta das suas
orelhas, a ponta do nariz... Aí terminou o tempo da meditação e novamente... E
na verdade, não mudou nada! Só que antes você estava fazendo uma coisa e agora
você está fazendo outra. Na verdade, qualé a diferença essencial entre fazer uma
meditação e ler um jornal ou jogar futebol? Veja que, em essência, são
afazeres... Apenas na concepção há diferença! Fazer meditação é mais "puro" que
jogar futebol. Portanto, "eu me purifico enquanto medito, e não me purifico
enquanto jogo futebol"... Issoé apenas uma concepção! O que está faltando?...
"Eu tenho que encontrar a Verdade!"... Vou fazer uma viagem aos Estados Unidos,
ficar 21 dias no deserto, no Novo México, cantando com os coiotes... Ou fazer o
Caminho de Santiago... Ou vou morar um ano no Himalaia... "Já vendi tudo e estou
pronto!"... Será?!...
Tem a
história de um iluminado, que antes de sua iluminação foi à outro iluminado e
perguntou:
"- Isso que você tem, você pode me dar?"... E teve como resposta:
"- Sim! Posso! E você, pode pegar?!"... Foi um brilhante jogo de palavras! Eu
não tenho nada para dar, e você não tem que pegar nada. Nada!"Onde está o
erro?... Por que eu não encontro, se eu busco, busco, busco..." Mas você já
parou para pensar que talvez a própria busca seja o erro?... Você já parou para
pensar no que aconteceria se você parasse de buscar? E de novo, faço a mesma
pergunta: Quem pararia de buscar, se não a mesma pessoa que estava buscando?...
E qual a diferença essencial entre buscar e parar de buscar?
Como
entender o que estou falando? Vamos lá! Diretamente! Se quando eu digo que, ao
parar de buscar, você encontra; quem que pára de buscar?... A mesma pessoa que
estava buscando... E assim permanece o fazer. Permanece a entidade que faz. Pois
é! Onde está então a raiz disso tudo? A minha pergunta é básica!... E quantos de
nós teve a coragem de olhar para a pergunta e tentar respondê-la?!... E quantos
de nós sabe qual é a pergunta?... Quantos de nós sabe quem é essa entidade que
busca?... Quem é essa entidade que entendeu que é para parar de buscar, e vai
parar de buscar?... Quem sou eu?... Será que eu sei quem eu sou?... Eu encontrei
a resposta para essa pergunta?... Eu realizei?... Eu me dei conta?...
Quantos de
nós sabe a resposta?... Se é que há alguma resposta!... E talvez tenha, mas não
seja uma idéia que você possa conceber. Talvez seja algo inconcebível!... Talvez
seja algo que você não gostaria de descobrir e por isso, você procura em todos
os outros bolsos a chave, menos em um dos bolsos. Procura inclusive, nos bolsos
de outras pessoas... Você viaja a procurar nos bolsos de outros lá longe... para
ver se sua chave está lá.
Você
procura, inclusive, encontrar sua chave em lugares que você nunca passou... Mas
naquele bolso, você não mexe!... Você não procura lá!... Porque talvez, você não
queira saber o que é que essa chave contém, ou qualé que é a substância dessa
chave, do quê ela é feita... Se é que ela é feita de alguma coisa... Ou ainda se
existe mesmo uma chave!... Lembre-se! Tem um bolso que precisa ser olhado! Um
único bolso falta ser olhado!... Em todos os outros você já tentou encontrar, e,
se você observar, as pessoas ao seu redor já procuraram também em outros
lugares, e não encontraram!...
Só tem um
lugar para olhar, e ele começa com a pergunta: "Quem é você?"...
E acredite! Você não é nada que você pense que você seja... Não importa o quão
maravilhosa seja a idéia que você tenha de si mesmo... Ou horrenda, ou terrível,
ou medíocre... Não é questão do adjetivo: a questão é do substantivo! Você não
pode ser uma idéia, porque uma idéia pode ser repetida, e você é irrepetível!
Você não é
algo que possa ser apalpado, que possa ser tocado... Qualquer idéia que eu te
der, qualquer idéia que você receba, não é o que você é. Porque você é
indefinível...
E aí, você
pode pensar: "OK! Já sei quem sou! Sou algo indefinível!"... Só que isso será
mais uma idéia! Essencialmente, você não é definível e nem indefinível... Quem é
você? E essa pergunta só pode ser respondida por você! Não pode ser respondida
por mim, nem por um outro alguém... Mas tem que ser perguntado: "Quem sou eu?"
Quem é essa
figura que pensa que pensa?... Quem é essa figura que pensa que tem que parar os
pensamentos para chegar no Nirvana?... Que pensa que está sofrendo... Que pensa
que está feliz... Que pensa, inclusive, que é um"eu"; que fala "eu" todos os
dias: "Eu quero isso..."; "Eu quero aquilo..."; "Eu gosto disso..."; "Eu não
gosto daquilo..." Esse "eu" que faz escolhas, e que existe apenas na fluição
desses pensamentos, dessas escolhas...
"Quem sou
eu?"... Parece complicado, mas é mais simples do que você possa
conceber. Pelo simples motivo que você já é, e não tem como não ser. Você não
pode encontrar a si mesmo, porque você é o que está buscando. Com a idéia que
lhe foi dada, subentende-se que há alguém que busca, e que tem algo a ser
encontrado. Tem um sujeito e tem um objeto! E você pode escolher quem você é: o
sujeito ou o objeto. E, ainda assim, qualquer escolha que você faça, não é você!
De repente,
você se depara com o vazio, com o indefinível, com o sem-forma, com o sem-nome,
com o infinito... Que não pode ser medido, não pode ser percebido, sentido ou
compreendido... E aí, você fica de cara com aquilo, e diz: "Não! Não pode ser
isso! Isso é um desastre!"... Será que é mesmo um desastre?... E não tem como
saber, a menos que você se confronte e veja por si mesmo... Especular antes de
se jogar no abismo é vão!
O meu
convite é: Antes de pensar, jogue-se! Pense depois!... Esse abismo que estou
falando é o abismo que você é! Confronte algo que de alguma forma as pessoas têm
dito que é inacessível e amedrontador. E não esqueça que isso é uma idéia
emprestada de alguém. A mente concebe a idéia de algo vazio como vazio, mas será
que o vazio é vazio mesmo?... E se o vazio for cheio e o cheio que a mente
concebe for vazio?!... Se você observar agora, verá que a experiência de cheio
que a mente concebe é completamente vazia, ou não é?!... Você comprou o carro do
ano e se sente cheio. Mas passa o ano e esse cheio se torna vazio.E você precisa
de outro carro... E assim, o desejo enche de vazio a sua vida... Quem sabe
então, o vazio enche realmente a sua vida?!...
Questione-se! E não esqueça que o primeiro passo para esse vazio, é saber quem é
você.
"Ah! Eu sou
fulano de tal, filho do meu pai e da minha mãe..." Será?! Será que isso é você
mesmo? Nossa! É tão simples e tornaram tão complicado, tão inacessível! O que é
até entendível, porque o que fazem muito simples, você não valoriza. Se eu digo
que depois que você encontrar a Verdade, você realizará milagres e poderá
passear no Cosmos, aí é dado valor. Mas se a resposta é negativa, então você
logo se questiona: "Ah! Então para que descobrir a Verdade?! Se não acontece
nada! Se nada é mudado, se tudo permanece a mesma coisa... então, para que?"
Daí, então, tornaram isso difícil; de modo que você acha que deve meditar um
pouco mais, ou se preparar um pouco, ou que você precisa purificar seu corpo,
sua mente, sua alma... Que você como está, está impuro. Logo, mais um ideal,
mais algo idealizado, prorrogado para outro momento no futuro... E você ainda
aceita com o "coração". E daí você medita mais um pouco, e novamente se
apresenta,e lhe é dado mais um outro problema. E mais uma vez é prorrogado...
Pode
acontecer agora! Aqui! E de novo já posso ouvir sua mente tentando apreender o
que foi dito: "Mas acontecer o quê?... Mas observe! Tem algo a acontecer? Te
disseram que algo aconteceria, e você vive à espera de que algo aconteça. E eu
estou mais uma vez repetindo: esse algo é uma idéia! Você não vai ver luzes e
nem sentir uma explosão de êxtase... E você tem buscado quem você é, esperando
por isso. Mas não se engane! Não há nenhuma idéia que se assemelhe àquilo que
você é!
Na
Idade Média, na Europa, existia um grupo religioso chamado "Os Irmãos do
Espírito Livre". Talvez uma das poucas tradições da Iluminação no Ocidente. E
eles diziam o seguinte: "Você é deus. No mundo fenomenológico, você é uma
manifestação, uma emanação de Deus, que, quando termina o seu período corporal,
você retorna a Ele, e não existe nada a não ser Deus manifesto e o retorno."
Perfeito! Não poderia ser tão simples! Nem mesmo somos separados de Deus, se não
uma emanação daquilo que está em descanso... Que emana-se, manifesta-se, e que
quando termina o processo de manifestação, retorna! Assim como uma onda no corpo
do Oceano. Que sobe, e desce... E terminou!
E agora?
Quem é você? Você é a onda? Uma emanação? Em essência, qual é a radical
pergunta, qual é a radical resposta?... Tudo o que existe é o Oceano! Não existe
onda. Foi dado um nome a algo que é o próprio Oceano. E, quando foi dado um nome
para aquilo, foi feita uma separação entre a onda e o oceano. E isso explica
talvez você estar identificado com o seu nome, e a sua forma.
Descubra!
Existe uma tendência em procurar no lugar errado. Você tem que perceber algo que
não pode ser percebido, por você ser aquele que percebe. Não tem saída! Não tem
para onde ir! Por isso, páre de buscar! Páre! Stop! Zera tudo! E não esqueça!
Não é um zerar, pois não há alguém que zere. Não há nada fora do Todo, fora do
Divino, da Essência, da Consciência...